Mulheres e meninas na ciência: a engenharia biomédica entre avanços e desafios

No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, dados do Confea/Crea indicam paridade na Engenharia Biomédica, mas visibilidade e reconhecimento ainda são temas em aberto

Celebrado em 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência coloca em pauta um desafio persistente: a desigualdade de gênero na produção científica e tecnológica. No Brasil, a Engenharia Biomédica aparece como um recorte relevante nessa discussão por reunir uma participação feminina próxima da paridade entre profissionais registrados. Ao mesmo tempo, o número absoluto ainda é pequeno e não reflete todas as mulheres formadas na área, o que evidencia lacunas de visibilidade e reconhecimento.

“O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, estabelecido pela Unesco, é muito mais que uma data simbólica. É um lembrete urgente da necessidade de eliminarmos as barreiras que ainda impedem a participação plena e equitativa de metade da população no processo científico e tecnológico”, afirma Sônia Maria Malmonge, Presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB).

A data também permite olhar para a representatividade institucional da SBEB, com uma mulher na presidência em um espaço de liderança estratégica para uma área que conecta ciência, tecnologia e saúde.

Sobre a data

O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência foi instituído em 2015 para reconhecer a contribuição das mulheres no avanço científico e tecnológico e chamar atenção para as desigualdades que ainda limitam acesso, permanência e progressão de carreira. A data dialoga com a Agenda 2030, especialmente com o ODS 5, que trata da igualdade de gênero e do empoderamento de mulheres e meninas.

Os números ajudam a dimensionar o desafio. Dados atribuídos à Unesco indicam que as mulheres representam cerca de 33% dos pesquisadores no mundo e apenas 35% dos estudantes nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). A leitura desses indicadores é direta: mesmo com avanços, barreiras estruturais e culturais ainda restringem a presença feminina nas áreas consideradas estratégicas para inovação.

Cenário brasileiro
No Brasil, o recorte de gênero é especialmente evidente nas engenharias. Um levantamento do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) em 2024 aponta que homens são 80% dos profissionais registrados, enquanto mulheres representam 20% — uma diferença que reforça o caráter historicamente masculino desses campos.

O contraste com a saúde chama atenção. Nos cursos da área da saúde, as mulheres representam mais de 70% das matrículas, o que ajuda a expor uma divisão recorrente entre carreiras entendidas como “técnicas” e aquelas tradicionalmente associadas ao cuidado. Nesse cenário, a Engenharia Biomédica ocupa um lugar particular: é uma engenharia com forte interface com a saúde e com o cotidiano dos serviços e tecnologias usadas no cuidado.

“Mulheres na liderança de projetos tendem a trazer perspectivas únicas para problemas como saúde materna, doenças autoimunes — mais prevalentes em mulheres — e a experiência do usuário em equipamentos hospitalares”, explica Sônia.

Engenharia biomédica

Dentro das engenharias, a Engenharia Biomédica se destaca com a participação feminina próxima da metade entre profissionais registrados no Confea/Crea. São 632 registros, sendo 313 mulheres e 319 homens, o que equivale a aproximadamente 49,5% de mulheres.

Mesmo com essa participação próxima da paridade, Sônia ressalta que “muitas mulheres ingressam, mas a proporção diminui drasticamente nos cargos de maior decisão e prestígio”, mencionando a baixa presença de professoras titulares, diretoras técnicas e fundadoras de startups de healthtech, além do impacto da dupla jornada e de vieses inconscientes na avaliação de currículos.

A paridade, porém, precisa ser lida com cuidado. Primeiro, porque o número absoluto de registros ainda é pequeno quando comparado ao universo geral das engenharias. Segundo, porque o registro profissional não equivale ao total de pessoas formadas em Engenharia Biomédica. Parte das profissionais pode seguir trajetórias em pesquisa, docência, gestão, inovação e indústria, ou atuar em frentes acadêmicas e científicas sem registro nos conselhos regionais.

Outro ponto é a ausência de estatísticas públicas consolidadas por gênero especificamente para a área. O tema lembra que o Censo da Educação Superior do Inep permite recortes, mas exige análise de microdados, e não há relatório nacional pronto e específico para Engenharia Biomédica. Isso dificulta acompanhar, de forma sistemática, como as mulheres avançam da formação ao mercado e onde ocorrem perdas de participação ao longo da trajetória.

Na prática, o dado do registro funciona como um sinal. A Engenharia Biomédica pode ser vista como uma “exceção positiva” em termos proporcionais dentro das engenharias, mas ainda atravessada por desafios comuns às carreiras científicas e tecnológicas — sobretudo quando o tema é reconhecimento, visibilidade e permanência.

Representatividade e liderança

Quando dados amplos são escassos, a visibilidade institucional e simbólica ganha peso no debate. Na avaliação de Sônia Malmonge, a presença de mulheres em cargos de liderança científica e institucional, como a presidência da SBEB, “além de mostrar que é possível a presença e atuação feminina, serve como incentivo não apenas para o pleito de mulheres a tais cargos, mas também para quem define quem deve ocupar tais cargos”.

É nesse ponto que a presença de uma mulher na presidência da SBEB se torna um elemento central do recorte proposto para a data. A entidade, como principal sociedade científica da Engenharia Biomédica no país, atua em um campo que combina ciência, tecnologia e saúde — áreas em que desigualdades de gênero ainda se manifestam, mesmo quando a proporção de mulheres se aproxima da paridade em alguns recortes.

A discussão, portanto, vai além de “quantas são”. Ela envolve quais trajetórias ganham espaço público, quais profissionais são reconhecidas como referências e como a presença de mulheres em posições estratégicas pode influenciar escolhas, permanência e projeção de carreira em um setor que tende a valorizar redes, liderança e reconhecimento institucional.

“Celebrar o Dia das Mulheres e Meninas na Ciência na Engenharia Biomédica não é sobre um gênero ser melhor que outro. É sobre reconhecer que, para engenhar a saúde do futuro, precisamos de todas as mentes brilhantes trabalhando juntas. A SBEB está comprometida em tornar essa visão uma realidade no Brasil”, conclui Sônia.

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