Da pesquisa ao mercado: o papel das mulheres na inovação em saúde

Trajetórias de pesquisadoras e empreendedoras mostram como a presença de mulheres fortalece a conexão entre ciência, mercado e tecnologias em saúde

A presença de mulheres em posições de liderança na engenharia biomédica, na indústria e no ecossistema de inovação em saúde tem crescido nas últimas décadas, acompanhando a expansão da área e o surgimento de healthtechs no Brasil. Em um cenário ainda marcado por desigualdades na ocupação de cargos gerenciais, esse avanço já repercute diretamente na formação profissional, na inovação aplicada e no desenvolvimento de soluções mais conectadas às necessidades do sistema de saúde.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres ocupam 39,3% dos cargos de liderança no país, com maior presença em áreas como saúde e educação. No setor de saúde, esse movimento se destaca: além de concentrar maior participação feminina na liderança, também apresenta um dos maiores percentuais de mulheres em cargos executivos, como CEOs. Ao mesmo tempo, persistem desigualdades estruturais, como diferenças salariais e menor presença feminina em setores industriais e tecnológicos, o que evidencia os desafios ainda existentes.

Na engenharia biomédica e nas tecnologias em saúde, esse cenário se traduz em trajetórias que conectam pesquisa, gestão, empreendedorismo e formação profissional. Entre os exemplos estão Juliana Kelmy Macario Barboza Daguano, diretora do Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer, em Campinas, e Mariana Brandão, fundadora da EDUTS. Em frentes diferentes, ambas atuam na aproximação entre conhecimento técnico e aplicação prática, contribuindo para fortalecer o setor produtivo e ampliar a presença feminina em espaços estratégicos da inovação em saúde.

Da pesquisa à aplicação

Uma das frentes centrais dessa liderança está na transformação da pesquisa em soluções concretas. Na engenharia biomédica, esse processo envolve aproximar descobertas científicas das demandas reais de hospitais, serviços de saúde e empresas, aumentando as chances de aplicação prática do conhecimento.

A trajetória de Juliana Daguano se insere nesse contexto. Com formação em engenharia bioquímica e atuação em biomateriais e dispositivos médicos, ela desenvolve pesquisas em áreas como biofabricação, bioimpressão 3D, organ-on-a-chip e tecnologias voltadas à substituição de testes in vivo.

“O meu maior desafio como dirigente institucional do CTI Renato Archer foi a mudança cultural da comunidade. Essa Unidade de Pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação – MCTI, com uma história de 43 anos de fundação, não havia até então sido conduzida por uma mulher, ainda mais sendo jovem, que possui a mesma idade da instituição”, informa Juliana.

Além da produção científica, sua atuação inclui a articulação de redes de colaboração e o fortalecimento de infraestruturas compartilhadas, aspectos importantes para dar escala e continuidade a projetos de inovação.

Uma das iniciativas estratégicas lançadas recentemente pelo CTI é o Parque Tecnológico CTI Tec. “Acredito fortemente que o modelo de Parque Tecnológico possa ser uma ferramenta estratégica para intensificar a relação entre centros de pesquisa e investidores no desenvolvimento de novas tecnologias em saúde no Brasil”, afirma a diretora.

No campo da aplicação prática, a experiência de Mariana Brandão ajuda a mostrar outro caminho possível. Engenheira biomédica formada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e fundadora da EDUTS, ela atua na capacitação de profissionais em tecnologias médicas, aproximando o conhecimento técnico da rotina hospitalar.

Sua trajetória também foi influenciada por referências femininas na engenharia. Mariana cresceu em um ambiente com mulheres atuando na área, como sua mãe e suas primeiras orientadoras, o que contribuiu para consolidar sua escolha profissional.

“Meu maior desafio foi interno: vencer a barreira da exposição pública. Superar a insegurança de projetar minha voz foi o passo decisivo para que eu pudesse, hoje, liderar a EDUTS e transformar minha experiência técnica em uma ferramenta de formação para outros profissionais”, afirma Mariana.

Esse trabalho reforça o papel da formação profissional na adoção segura e eficiente de novas tecnologias, especialmente em áreas ligadas à engenharia clínica e ao gerenciamento de equipamentos médicos. Sua atuação combina rigor metodológico, pensamento crítico e experiência prática na área.

“Ao unir esses dois mundos, criei trilhas de aprendizado que capacitam estudantes e profissionais a irem além da operação técnica, atuando na gestão estratégica das tecnologias para garantir segurança e eficiência”, informa Mariana.

Investimento e articulação de parcerias

Transformar ciência em produto também depende de capital, tempo e articulação institucional. No Brasil, muitas iniciativas em saúde avançam até a fase de validação técnica, mas encontram dificuldades para atrair investimento e chegar ao mercado.

“As inovações em saúde exigem um esforço a mais, devido às questões regulatórias e de certificação que são bastante complexas. Não é somente uma questão de investimento ou de política, mas o rigor científico não pode ser subestimado. Dessa forma, gostaria de chamar a atenção para o ‘Vale da Morte’ da inovação”, aborda Juliana.

Juliana ainda informa que, na academia, há forte capacidade de gerar conhecimento e desenvolver protótipos, mas a transformação dessas iniciativas em soluções escaláveis ainda enfrenta desafios. Entre eles estão o alto custo e a complexidade dos ensaios clínicos, a necessidade de fortalecer parcerias com a indústria e a transição de projetos acadêmicos para modelos sustentáveis, capazes de operar no sistema de saúde.

“Entre a pesquisa básica de bancada, aquela que se faz nos laboratórios dos Centros de Pesquisa e das Universidades, e a incorporação da tecnologia no SUS, há uma longa jornada a ser percorrida. O que é importante mencionar é que esse caminho é estruturado e transparente, passando por fases clínicas rigorosas e pela avaliação de tecnologia em saúde (ATS), sempre com foco no custo-efetividade”, informa Juliana.

No caso das healthtechs, o desafio é ainda maior devido ao tempo de maturação e às exigências regulatórias, o que aumenta a percepção de risco entre investidores.

Nesse contexto, a aproximação entre pesquisa, startups e capital é fundamental para ampliar as fontes de financiamento e viabilizar a entrada de soluções no mercado.

“A aproximação é essencial. Investidores são atraídos por soluções que resolvem dores reais, economicamente viáveis ao longo do tempo e com impacto na saúde. Para isso, é preciso mensurar com dados do mundo real o valor da solução”, explica Mariana.

As lideranças femininas tendem a desempenhar papel relevante na construção dessas parcerias, especialmente pela capacidade de articulação entre diferentes atores.

“Nossa história cultural nos induz a ouvir. Além de possuirmos uma visão sistêmica, o que traz grandes habilidades organizacionais, mais facilmente somos capazes de realizar uma gestão baseada na pluralidade, ou seja, diversidade de opiniões, ideias, pessoas, lugares incomuns”, afirma Juliana.

Regulação e barreiras de entrada

Outro ponto decisivo para o avanço das tecnologias em saúde é a regulação. Dispositivos médicos, softwares clínicos e soluções digitais precisam atender a exigências técnicas e sanitárias que envolvem órgãos como a Anvisa, além de normas relacionadas à proteção de dados.

Para empresas menores e startups, esse percurso pode ser longo e custoso, exigindo planejamento e conhecimento técnico.

“Minha recomendação inicial seria que o conhecimento regulatório deve fazer parte do design do produto desde o primeiro dia, e não ser apenas uma etapa ao final”, indica Mariana.

Esse cenário mostra que a inovação em saúde depende não apenas de boas ideias, mas do preparo para atuar em um ambiente regulado e complexo.

Escala, mercado e formação

Mesmo quando uma tecnologia supera a fase de pesquisa e validação, ainda restam desafios para ganhar escala. O mercado de saúde no Brasil é fragmentado, o que dificulta a adoção rápida de novas soluções.

Nesse cenário, a formação de profissionais ganha importância. A qualificação em engenharia clínica, gestão tecnológica e inovação aplicada contribui para a incorporação mais eficiente de novas tecnologias. Plataformas como a EDUTS ampliam o acesso ao conhecimento técnico e ajudam a reduzir gargalos na implementação.

Além disso, a atuação de centros de pesquisa é fundamental para viabilizar a transição entre desenvolvimento e aplicação. À frente do CTI Renato Archer, Juliana Daguano atua na articulação de projetos e infraestruturas que conectam pesquisa e setor produtivo, contribuindo para que soluções avancem em direção à escala.

O crescimento das healthtechs também reforça a necessidade de profissionais capazes de transitar entre ciência, mercado, regulação e gestão, perfil cada vez mais relevante na área.

Inovação nacional e novas referências

A engenharia biomédica tem se consolidado como área estratégica para a inovação em saúde no Brasil, com expansão de cursos, maior presença na indústria e crescimento de soluções baseadas em tecnologias digitais.

“Acredito profundamente que a inovação começa com o encantamento pelo problema, não apenas pela solução. A inovação com impacto nasce da curiosidade aliada a uma vontade genuína de transformar a realidade”, afirma Mariana.

Assim, a diversidade na liderança contribui para ampliar perspectivas e fortalecer a capacidade de resposta aos desafios do setor.

Estudos indicam (Agência Brasil, Segs e Inep) que a presença feminina em cargos de liderança está associada a ambientes mais inovadores e ao desenvolvimento de soluções mais alinhadas às necessidades da população.

Neste ecossistema, a Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB) atua como articuladora, integrando academia, indústria e mercado. Ao dar visibilidade a trajetórias femininas, a entidade contribui para fortalecer referências e incentivar novas gerações.

Mais do que ampliar a presença em cargos estratégicos, a liderança feminina tem contribuído para transformar a forma como as tecnologias em saúde são concebidas, desenvolvidas e implementadas, ampliando o potencial de resposta aos desafios da sociedade.

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