Atuação de professoras impulsiona a formação de profissionais, a produção científica e a integração entre ensino, pesquisa e inovação em saúde
A formação de novos profissionais e o desenvolvimento da engenharia biomédica no Brasil contam com a atuação de mulheres em diferentes frentes. Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas na saúde, essas profissionais contribuem para a produção de conhecimento, a atualização dos cursos e a aproximação entre universidade, inovação e demandas do sistema de saúde.
Ao atuar na formação, na pesquisa e na articulação institucional, essas profissionais contribuem para consolidar a engenharia biomédica como campo científico e tecnológico e ampliar sua capacidade de gerar soluções mais diversas, aplicadas à saúde.
Docência feminina
A presença feminina na educação brasileira é expressiva, especialmente nos níveis iniciais de ensino. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) indicam que cerca de 80% dos docentes da educação básica são mulheres, percentual que ultrapassa 90% na educação infantil. No ensino superior, elas representam aproximadamente 46% do corpo docente.
Essa participação, no entanto, diminui em áreas tecnológicas. Nas engenharias, as mulheres correspondem a cerca de 23% do corpo docente, o que evidencia desafios na ocupação de espaços estratégicos na formação científica. O contraste mostra que, embora sejam maioria na base do sistema educacional, ainda enfrentam barreiras para consolidar suas trajetórias em campos ligados à tecnologia.
Na engenharia biomédica, a docência envolve mais do que a transmissão de conteúdos. As educadoras participam da organização dos cursos, da definição de conteúdos e da construção de ambientes de aprendizagem que integram diferentes áreas do conhecimento. Esse processo sustenta tanto a formação de profissionais quanto a produção científica que impulsiona a área.
No Brasil, segundo o Sindicato dos Professores e Professoras das Universidades Federais de Santa Catarina (Apufsc-Sindical), as mulheres representam cerca de 57% dos titulados na pós-graduação, mas ocupam aproximadamente 43% das posições na docência permanente. O descompasso, conhecido como “efeito tesoura”, indica que, apesar do avanço na formação, ainda existem obstáculos na progressão da carreira acadêmica.
Atualização do ensino e mercado
A engenharia biomédica é impulsionada por avanços constantes em áreas como inteligência artificial, bioinformática, dispositivos médicos e saúde digital. Esse cenário exige atualização contínua dos currículos e das práticas de ensino.
As docentes desempenham papel central nesse processo ao revisar conteúdos, incorporar novas metodologias e promover a integração entre diferentes áreas. A formação continuada reforça esse movimento: mulheres ocupam cerca de 54% das vagas em programas de pós-graduação stricto sensu no país, ampliando sua presença na qualificação acadêmica e na produção de conhecimento.
Essa dinâmica contribui para alinhar o ensino às demandas contemporâneas e preparar estudantes para lidar com problemas reais, que exigem visão interdisciplinar e capacidade de adaptação.
A formação também se conecta diretamente ao mercado de trabalho. A engenharia biomédica exige compreensão de contextos clínicos, tecnológicos e regulatórios. Ao orientar projetos aplicados e incentivar a pesquisa, as docentes aproximam o ensino das demandas do sistema de saúde e do setor produtivo, fortalecendo a preparação dos futuros profissionais.
Diversidade, desafios e impacto na formação
A presença feminina na docência influencia a permanência de estudantes, especialmente em áreas de ciência e tecnologia. No cenário global, as mulheres representam cerca de 33% dos pesquisadores, e no Brasil ainda são minoria em cursos de engenharia e tecnologia. A atuação de professoras como referência contribui para ampliar a identificação de alunas com a área e incentivar a continuidade na carreira científica.
Apesar dos avanços, desafios estruturais persistem e dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que as mulheres recebem, em média, cerca de 20% menos que os homens no mercado de trabalho formal. Na academia, essa desigualdade se reflete no acesso a cargos de liderança e na progressão da carreira. Atualmente, de acordo com o Projeto Colabora, mulheres ocupam cerca de 40,5% das reitorias de universidades federais.
A sobrecarga de trabalho também é uma realidade recorrente, com acúmulo de atividades de ensino, pesquisa, orientação e gestão, além de responsabilidades pessoais. Esse cenário impacta diretamente a permanência e o desenvolvimento na carreira científica.
Diante disso, iniciativas institucionais e políticas públicas têm buscado ampliar a inclusão e a equidade, com programas de incentivo, ações afirmativas e apoio à formação continuada.
Mais do que exercer a docência, essas profissionais estruturam a formação em engenharia biomédica e influenciam diretamente a qualidade da produção científica e da inovação em saúde. Ao formar profissionais e sustentar o desenvolvimento da área, contribuem para ampliar a capacidade da engenharia biomédica de responder às necessidades da sociedade.
Ao reconhecer esse cenário, a Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB) reforça seu compromisso com a valorização e a ampliação da presença feminina na área. A entidade tem atuado para dar visibilidade às trajetórias de pesquisadoras e docentes, além de promover espaços de discussão sobre equidade de gênero em seus eventos, iniciativas e redes de colaboração. Esse movimento busca não apenas reconhecer a contribuição já consolidada dessas profissionais, mas também enfrentar as barreiras que ainda limitam sua progressão na carreira científica e tecnológica.
Mais do que uma pauta institucional, a valorização das mulheres na Engenharia Biomédica está diretamente ligada à qualidade da formação, à diversidade de perspectivas e à capacidade de inovação do campo. Ao incentivar a participação feminina desde a graduação até posições de liderança, a SBEB contribui para um ambiente mais inclusivo e alinhado às demandas da sociedade. Nesse contexto, fortalecer a presença das mulheres significa também ampliar o impacto social da engenharia biomédica, tornando-a mais representativa, acessível e conectada com a realidade brasileira.