Mulheres na engenharia biomédica ampliam impacto da ciência nas políticas de saúde

Participação feminina cresce na pesquisa e na inovação em saúde, mas barreiras institucionais e de gênero ainda limitam o avanço em espaços estratégicos de decisão

A presença das mulheres na Engenharia Biomédica tem crescido no Brasil e já aparece de forma relevante em registros profissionais, projetos de pesquisa e iniciativas ligadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Esse avanço reflete mudanças em um campo que conecta engenharia, biologia, computação e cuidado em saúde — áreas essenciais para o desenvolvimento de tecnologias médicas e para o funcionamento do sistema de saúde.

Nos últimos anos, a participação feminina tem aumentado especialmente na formação acadêmica e na produção científica. No Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), por exemplo, mulheres representam 52,38% dos engenheiros biomédicos registrados, um percentual expressivo em uma área historicamente associada às engenharias tradicionais.

Embora ainda não existam estatísticas nacionais consolidadas sobre o perfil da área, levantamentos indicam que a Engenharia Biomédica tem atraído cada vez mais pesquisadoras e profissionais. Essa presença crescente já se reflete em projetos de inovação, pesquisas científicas e iniciativas voltadas ao fortalecimento do sistema público de saúde.

Impacto na pesquisa e nas políticas públicas

O crescimento da participação feminina também aparece na liderança de projetos de pesquisa ligados ao SUS. Em chamadas públicas recentes relacionadas ao sistema público de saúde, mulheres coordenaram cerca de 55% dos estudos aprovados — 186 projetos entre 336 selecionados.

Essas pesquisas abrangem áreas estratégicas como diagnósticos, terapias regenerativas e desenvolvimento de dispositivos médicos. Também incluem soluções voltadas a desafios concretos da saúde pública brasileira, como testes para HPV (Papilomavírus Humano), dengue, zika e Covid-19, além de estudos voltados ao tratamento de lesões neurológicas.

“Ao longo da minha trajetória, tenho tido a oportunidade de trabalhar ao lado de mulheres extraordinárias que têm contribuído de forma decisiva para a formulação e implementação de políticas públicas em saúde no Brasil. Na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), por exemplo, a liderança feminina tem sido uma constante ao longo dos anos”, afirma Fotini Toscas, coordenadora-geral de dispositivos médicos do Ministério da Saúde.

Atualmente, Fotini coordena uma equipe formada majoritariamente por mulheres que atuam na elaboração de políticas, programas e estratégias voltadas ao fortalecimento do setor de dispositivos médicos.

“No Ministério da Saúde, atualmente coordeno uma equipe majoritariamente composta por mulheres que trabalham diretamente na formulação de políticas, programas e estratégias voltadas ao fortalecimento do setor de dispositivos médicos no país. Além disso, grande parte da equipe é formada por engenheiras, profissionais que trazem uma contribuição técnica muito qualificada para as decisões e ações estratégicas da área”, informa Fotini Toscas.

Transformar pesquisa em tecnologia para o SUS

Apesar do avanço da produção científica, transformar conhecimento em tecnologias disponíveis para o SUS ainda representa um desafio importante no campo da inovação em saúde.

A incorporação de novas soluções exige validação científica, aprovação regulatória, financiamento e articulação entre universidades, empresas e governo. No caso do SUS, que é um sistema universal e descentralizado, garantir o acesso a tecnologias inovadoras também envolve lidar com desigualdades regionais e limitações estruturais.

“No caso do SUS, que é um sistema universal, descentralizado e marcado por importantes desigualdades regionais, garantir o acesso equitativo a dispositivos médicos inovadores exige um esforço coletivo e um compromisso social de todos os atores envolvidos”, explica Fotini.

Entre os principais obstáculos estão a burocracia regulatória, limitações de financiamento e dependência tecnológica externa. Em muitos casos, soluções desenvolvidas em laboratório encontram dificuldades para chegar ao uso em larga escala.

“Estudos recentes também apontam lacunas relevantes na formação e na preparação de pesquisadores e desenvolvedores para navegar por todas as etapas necessárias para que uma tecnologia chegue efetivamente ao sistema de saúde”, esclarece Fotini.

Essas lacunas envolvem conhecimentos em regulação sanitária, propriedade intelectual, testes de validação, estudos clínicos e avaliação econômica em saúde — aspectos fundamentais para demonstrar segurança, eficácia e viabilidade de implementação no SUS.

Regulação e inovação tecnológica

Outro elemento central nesse processo é o papel da regulação sanitária. O desenvolvimento de tecnologias para dispositivos médicos tem avançado rapidamente, impulsionado pelo uso de inteligência artificial, softwares aplicados à saúde e equipamentos conectados à internet das coisas.

“Para o sistema regulatório, o principal desafio é acompanhar essa velocidade garantindo que a inovação chegue à sociedade com segurança, qualidade e eficácia comprovadas em tempo oportuno. Atuando como promotora da inovação e não como obstáculo”, esclarece Vivian Cardoso de Moraes Oliveira, gerente-geral de Tecnologia de Produto para Saúde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Esse cenário exige modelos regulatórios mais ágeis, baseados em avaliação de risco e maior cooperação internacional entre agências reguladoras.

“Quando essas três dimensões trabalham de forma coordenada, conseguimos reduzir redundâncias, melhorar a eficiência dos processos e direcionar esforços para tecnologias que realmente gerem valor clínico e impacto para os pacientes e sociedade como um todo”, afirma Vivian.

Desigualdade de gênero na carreira científica

Apesar do crescimento da presença feminina na formação acadêmica, as mulheres ainda ocupam menos posições de liderança na ciência. Atualmente, elas representam cerca de 35,5% das bolsas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), um dos principais indicadores de reconhecimento na carreira científica brasileira.

Essa diferença também aparece em cargos de direção, coordenação de centros de pesquisa e posições estratégicas ligadas às políticas científicas e tecnológicas — fenômeno frequentemente descrito como “efeito tesoura”.

Entre os fatores associados a essa desigualdade estão estereótipos de gênero, menor presença de referências femininas em posições de liderança, sobrecarga doméstica e ambientes institucionais menos favoráveis ao avanço profissional.

“Ao longo desses anos, percebo uma mudança importante: cada vez mais mulheres estão ocupando posições de liderança em áreas que historicamente tinham predominância masculina, como engenharia, inovação e regulação tecnológica. Isso é extremamente positivo, porque a diversidade de perspectivas fortalece a tomada de decisão e a capacidade institucional”, informa Vivian.

Caminhos para ampliar a participação feminina

Apesar desses desafios, especialistas apontam que a presença feminina em áreas estratégicas da inovação em saúde tende a crescer nos próximos anos. Esse movimento também é impulsionado por políticas voltadas à equidade de gênero na ciência e na inovação, como a Política de Empoderamento de Meninas e Mulheres na Ciência, editais do CNPq e programas de incentivo à formação feminina em áreas tecnológicas.

Segundo Fotini, ampliar a participação feminina também significa ampliar o impacto social da inovação em saúde.

“O SUS é um sistema complexo que precisa de profissionais capazes de transformar avanços tecnológicos em soluções práticas para melhorar o cuidado à saúde”, afirma.

“Não basta apenas desenvolver tecnologias; é fundamental participar das discussões sobre regulação, avaliação, financiamento, implementação e gestão dessas soluções nos sistemas de saúde”, informa Fotini.

O futuro da inovação em saúde

O avanço da Engenharia Biomédica no Brasil está diretamente ligado à capacidade de integrar ciência, tecnologia e políticas públicas. Nesse cenário, a presença feminina em posições de pesquisa, regulação e gestão pode contribuir para ampliar o alcance das inovações e fortalecer o sistema de saúde.

Para Vivian, incentivar novas gerações de profissionais também é parte desse processo.

“Meu principal conselho é: não subestimem o impacto que vocês podem ter nessas áreas. A inovação tecnológica e a regulação em saúde precisam de profissionais preparados, comprometidos e com visão de futuro”, conclui.

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