Entidade apresenta caminhos para fortalecer a tecnologia em saúde no Brasil, com foco em inovação, qualificação profissional e desenvolvimento nacional
Ampliar o acesso a tecnologias, qualificar profissionais e aproximar ciência, governo e setor produtivo são caminhos apontados para fortalecer a saúde no Brasil. Durante a Hospitalar 2026, a Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB) ressaltou o papel da inovação voltada às necessidades da população. Às vésperas de celebrar 50 anos de atuação, em dezembro de 2025, a entidade reafirmou seu compromisso com a excelência acadêmica, a responsabilidade social e a acessibilidade, valores que sustentam sua atuação e impulsionam o desenvolvimento da engenharia biomédica no país.
Ao longo de sua trajetória, a SBEB consolidou sua atuação na promoção da ciência e da tecnologia em saúde, articulando universidades, institutos de pesquisa, hospitais e empresas em torno do desenvolvimento da Engenharia Biomédica. Em um cenário de crescente demanda por serviços de saúde, a área tem assumido papel estratégico ao transformar conhecimento científico em ferramentas voltadas ao aprimoramento de diagnósticos, tratamentos e da gestão dos serviços de saúde.
Durante palestra na Hospitalar 2026, Daniel Almeida Filho, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da SETEC-MCTI, destacou a necessidade de fortalecer a capacidade nacional de desenvolvimento tecnológico em saúde. “A pandemia esteve aí para nos mostrar claramente o quanto ainda dependemos de tecnologias internacionais para poder desenvolver a todo tipo de atenção à saúde e desenvolvimento econômico no país […] Então é muito importante que a gente favoreça isso”, aponta.






Uma construção de longo prazo
O fortalecimento da tecnologia em saúde passa pela formação de profissionais capazes de atuar na interface entre engenharia, biologia e medicina. Por isso, a SBEB investe no apoio à graduação e à pós-graduação em Engenharia Biomédica, na promoção da formação continuada e na valorização da docência.
A estratégia busca preparar profissionais aptos a enfrentar desafios técnicos, éticos e sociais relacionados ao desenvolvimento e à aplicação de tecnologias em saúde.
“A gente precisa avançar bastante nisso para ser estratégico, utilizar a saúde como é mola propulsora estratégica do desenvolvimento nacional e nada melhor de disso do que fazer isso com propósito, ou seja, estamos fazendo isso, desenvolvendo o país e ao mesmo tempo …. nós estamos servindo a nossa população”, afirma Almeida Filho.
A produção e a disseminação do conhecimento também fazem parte desse esforço. O Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica (CBEB) tornou-se um dos principais espaços de intercâmbio científico da área, enquanto a revista Research on Biomedical Engineering contribui para ampliar a visibilidade da produção científica nacional.
Quando a pesquisa chega à sociedade
A Engenharia Biomédica tem ampliado a sua relevância ao transformar resultados científicos em aplicações voltadas à assistência à saúde. Entre os exemplos está o desenvolvimento de um tomógrafo de mama por ultrassom na Universidade de São Paulo (USP).
Resultado de mais de duas décadas de pesquisa, a tecnologia foi criada como uma alternativa sem radiação ionizante para o rastreamento e o diagnóstico precoce do câncer de mama. O projeto possui potencial de integração ao Sistema Único de Saúde (SUS) e foi concebido para ampliar o acesso ao diagnóstico.
Outras iniciativas demonstram a diversidade de aplicações da área. A inteligência artificial já auxilia no diagnóstico e processos clínicos; a neuroimagem contribui para a compreensão dos transtornos mentais; a bioimpressão 3D avança na medicina regenerativa; e os sistemas organ-on-a-chip criam novas possibilidades para pesquisas biomédicas e testes de medicamentos.
“Então a gente precisa de tecnologia para saber fazer isso de forma bastante específica e personalizada. Esse é o grande conceito do futuro, a chamada indústria 5.0, ou indústria da hiperpersonalização, que é a capacidade de você coletar informações massivas e de diversas fontes diferentes, consolidar essas informações com a capacidade de processamento avançado, como através de inteligência artificial e prover soluções personalizadas para as pessoas”, afirma Almeida Filho.
Apesar de distintas, essas iniciativas compartilham um objetivo comum: aproximar a pesquisa científica das necessidades concretas da população.
O desafio de transformar inovação em acessibilidade
O desenvolvimento tecnológico, no entanto, é apenas uma etapa do processo. Para que novas soluções cheguem à população, é necessário enfrentar desafios relacionados à regulação, à incorporação tecnológica e à articulação entre academia, governo, empresas e usuários.
Marco Pelegrini, especialista em Tecnologia Assistiva, consultor, ativista e articulador de Políticas de Inclusão Social da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, avalia que a sociedade avançou significativamente na inclusão das pessoas com deficiência, mas ainda enfrenta o desafio de ampliar o acesso a esses recursos em todo o país. “Hoje a nossa sociedade evoluiu de uma forma impressionante culturalmente, e recebe essas pessoas, vive esse dia a dia dessas pessoas. E o que falta é a gente conseguir escalar isso e alcançar todos os pontos que a gente tem, todas essas pessoas que estão espalhadas aqui em nosso território”.
Essas discussões ganham relevância especialmente no contexto do SUS, que enfrenta desafios relacionados ao financiamento, às desigualdades regionais e à necessidade de ampliar a eficiência na oferta de serviços.
“O desafio é a capitalidade da reabilitação, porque esses processos se sofisticam […] e a gente sabe que ele só acontece em centros de maior desenvolvimento, poucas capitais. Tem estados completamente desprovidos desse processo”, afirma Pelegrini.
Ao mesmo tempo, a ampliação da capacidade científica nacional e a adoção de tecnologias digitais aparecem como oportunidades para expandir a acessibilidade e qualificar o atendimento.
“Isso é importante também, tropicalizar tecnologias existentes e ter similares nacionais para poder suprir o SUS , mas além disso nós precisamos mirar no futuro. A gente precisa saber o que é que a sociedade mundial está precisando na área de saúde, tanto a brasileira como o mundo, o envelhecimento das populações, etc”, informa Almeida Filho.
Um legado voltado para o futuro
Ao completar 50 anos, a SBEB chega a um momento em que a inovação em saúde ocupa posição cada vez mais central nas discussões sobre desenvolvimento científico, econômico e social do país.
Essa reflexão foi apresentada durante a participação da instituição na Hospitalar 2026, principal feira de saúde da América Latina. Ao levar ao palco o tema “Inovação com propósito: caminhos para o fortalecimento da tecnologia em saúde do Brasil“. A SBEB reuniu representantes do governo, da academia e do setor tecnológico para discutir soluções que ampliem o acesso à saúde, reforcem a capacidade científica do país e estimulem o desenvolvimento de tecnologias voltadas à realidade brasileira.
Sua trajetória acompanha a consolidação da Engenharia Biomédica como uma área capaz de conectar pesquisa, desenvolvimento tecnológico e assistência à saúde. “E a gente tem um papel importante no governo de estado aqui. O governo do Estado trouxe para dentro das universidades essa pesquisa focada em produto”, conclui Pelegrini.
Em um país marcado por desigualdades regionais e desafios persistentes de acesso, fortalecer a capacidade nacional de desenvolver, avaliar e incorporar tecnologias permanece como um dos caminhos para ampliar oportunidades, qualificar o cuidado e contribuir para a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro.
“Desde 1988 na nossa Constituição em que colocamos de forma clara para todo mundo ver que a saúde é direito de todos e dever do Estado e é isso que a gente precisa garantir através da tecnologia que as sociedades cada vez mais dependem disso”, conclui Almeida Filho.
Referências:
Rodrigues DLG. Challenges and opportunities in the Brazilian Unified Health System: Pathways to sustainability and equity. Public Health. 2025;247:105844. https://doi.org/10.1016/j.puhe.2025.105844
Simões Corrêa Galendi J, Caramori CA, Lemmen C, Müller D, Stock S. Expectations for the Development of Health Technology Assessment in Brazil. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(22):11912. https://doi.org/10.3390/ijerph182211912