Tecnologias biomédicas ajudam a prevenir lesões, orientar a recuperação e aprimorar o desempenho dos atletas no futebol
O futebol é um dos esportes mais populares do mundo, mas também um dos mais exigentes fisicamente. A necessidade constante de esforço em alta intensidade aumenta o risco de lesões e exige acompanhamento cada vez mais preciso dos atletas, especialmente em competições como a Copa do Mundo. Nesse contexto, a Engenharia Biomédica tem ampliado sua presença no esporte ao desenvolver tecnologias capazes de monitorar o desempenho, prevenir lesões e apoiar a reabilitação com base em dados objetivos. Essa atuação está alinhada à missão da Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB) de aproximar ciência, tecnologia e saúde das necessidades da sociedade.
Futebol de alta intensidade e o desafio das lesões
As exigências físicas do futebol moderno tornam os atletas mais suscetíveis a lesões, especialmente nos membros inferiores. Segundo o artigo “Physiology of Soccer”, publicado na revista Sports Medicine, jogadores realizam ações de alta intensidade durante as partidas.
Compreender os impactos dessas demandas é uma das contribuições da Engenharia Biomédica para o esporte. O artigo “Explainable Machine Learning Techniques to Predict Muscle Injuries in Professional Soccer Players through Biomechanical Analysis”, publicado na revista Sensors, aponta que lesões musculares estão entre as mais frequentes no futebol profissional e que análises biomecânicas associadas à inteligência artificial podem ajudar a identificar fatores de risco.
Fernando José Ribeiro Sales, diretor administrativo da SBEB explica que as tecnologias biomédicas permitem identificar sinais precoces que muitas vezes passam despercebidos durante a observação convencional. “Ela ajuda na prevenção de lesões porque permite observar sinais que muitas vezes não aparecem a olho nu e que podem e podem aparecer antes da lesão aparecer de uma forma mais mais sincera”.
Essas ferramentas permitem detectar padrões de movimento e sobrecargas que podem contribuir para estratégias preventivas e acompanhamento individualizado dos atletas.
Tecnologias que monitoram performance em tempo real
Entre os recursos que mais avançaram nos últimos anos estão os sensores vestíveis. Segundo o artigo “The Fundamentals and Applications of Wearable Sensor Devices in Sports Medicine: A Scoping Review”, publicado na revista Arthroscopy, esses dispositivos incluem acelerômetros, sensores de força, rastreadores GPS, magnetômetros, giroscópios e unidades de medição inercial (IMUs).
De acordo com Sales, esses sensores oferecem uma visão detalhada da movimentação dos atletas e ajudam a identificar possíveis compensações corporais relacionadas ao risco de lesões. “Sensores vestíveis e MU’s conseguem medir muita coisa do movimento atleta. E também pode ajudar a perceber assimetrias se o atleta está protegendo mais uma perna, aterrizando de forma diferente ou mudando o jeito de correr”.
Os sensores podem monitorar frequência cardíaca, velocidade, amplitude de movimento, alinhamento corporal e carga física, fornecendo dados relevantes sobre desempenho e recuperação. Outra frente de desenvolvimento envolve sistemas de monitoramento em tempo real. O artigo “Smart Sensors, Smarter Players: The Role of Real-Time Monitoring in Football Training”, publicado na revista PLOS One, mostrou que sensores com feedback instantâneo podem contribuir para treinamentos mais individualizados.
O uso dessas tecnologias também ganhou visibilidade em casos de grande repercussão. Durante sua recuperação para voltar a defender a Seleção Brasileira, Neymar utilizou uma esteira antigravidade, equipamento que reduz a carga sobre os membros inferiores e permite uma retomada gradual das atividades.
Biofeedback e retorno aos jogos
Entre as ferramentas utilizadas na reabilitação, o biofeedback tem recebido atenção crescente. Segundo o artigo “Efficacy of Electromyographic Biofeedback in Muscle Recovery after Meniscectomy in Soccer Players”, publicado na revista Sensors, essa tecnologia transforma sinais fisiológicos em informações que podem ser interpretadas pelo atleta e pela equipe de saúde.
Sales explica que o biofeedback permite que o atleta visualize em tempo real informações sobre o próprio corpo, tornando o processo de recuperação mais consciente e direcionado. “Quando a gente fala de biofeedback, a gente tá falando de realimentação. […] É uma forma de mostrar ao atleta em tempo real o que o corpo está fazendo e você pode usar isso como insumo para ajudar a estabelecer um comportamento”.
Por meio da eletromiografia, é possível monitorar a atividade elétrica dos músculos e fornecer retorno imediato sobre sua ativação, favorecendo o controle neuromuscular durante a recuperação. Além disso, o artigo “On-Field Assessment of Joint Load in Football Using Machine Learning (Part II)”, publicado na revista Sensors, mostra que sensores vestíveis combinados a modelos de aprendizado de máquina podem avaliar cargas articulares em situações reais de treino e jogo.
Ao fornecer dados quantitativos sobre desempenho, recuperação e carga de trabalho, essas tecnologias ajudam a tornar mais objetiva a decisão sobre o retorno aos gramados. Para Sales, embora o tema ganhe visibilidade no esporte de alto rendimento, a Engenharia Biomédica está presente em diferentes contextos da saúde e beneficia a população de forma ampla.
“A engenharia biomédica não é importante apenas para os atletas de elite. Ela está presente em toda essa é uma das principais interfaces da tecnologia com a saúde. Então, a gente vai ver no dia a dia nos equipamentos de diagnóstico, na construção de sensores, transdutores, dispositivos de reabilitação, tecnologias assistivas, sensores de monitoramento”. A integração entre Engenharia Biomédica e futebol demonstra como a tecnologia tem contribuído para transformar o cuidado com os atletas, da prevenção de lesões à reabilitação personalizada. Ao divulgar aplicações como essas, a SBEB reforça a relevância da Engenharia Biomédica em áreas estratégicas para a sociedade.
Sales destaca que o fortalecimento da pesquisa e inovação tecnológica são fundamentais para ampliar os benefícios dessas soluções para toda a população. “O Brasil precisa formar profissionais, apoiar a pesquisa, estimular a inovação nacional e criar caminhos para que tecnologias seguras cheguem à população. A tecnologia só cumpre seu papel quando melhora a vida das pessoas”, explica.
Apesar de facilitar o dia a dia, Sales ressalta que essas tecnologias atuam como ferramentas de apoio para as equipes multidisciplinares responsáveis pelo cuidado dos atletas. Não substituindo profissionais especializados como médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos e demais profissionais, mas sim auxiliando na tomada de decisões mais seguras.
Referências:
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