Anúncio da Midjourney reforça tendências acompanhadas pela SBEB, com avanços em ultrassom e inteligência artificial
Mapear mais de 25 órgãos em até um minuto, sem radiação e com o apoio de inteligência artificial. Essa foi a proposta apresentada pela Midjourney para seu novo sistema de ultrassom tridimensional de corpo inteiro, que chamou a atenção ao sugerir um novo caminho para os exames de imagem. Embora a tecnologia ainda dependa de validação científica e aprovação regulatória, o anúncio evidencia tendências que já mobilizam pesquisadores e instituições da área de Engenharia Biomédica no Brasil e no mundo, incluindo iniciativas acompanhadas pela Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB).
Desenvolvido em parceria com a Butterfly Network, o sistema utiliza ultrassom para gerar reconstruções tridimensionais do corpo humano. Durante o exame, o voluntário é imerso em uma estrutura com água enquanto transdutores ultrassônicos realizam a varredura das diferentes regiões anatômicas. A empresa afirma que a tecnologia poderá, futuramente, complementar determinados exames, ampliando o acesso a diagnósticos rápidos e menos invasivos.
O Brasil acompanha essa transformação
Enquanto empresas internacionais exploram novas possibilidades para o ultrassom, pesquisadores brasileiros também avançam no desenvolvimento de tecnologias baseadas no mesmo princípio. Um dos exemplos é o tomógrafo de mama por ultrassom desenvolvido pelo Grupo de Inovação em Instrumentação Médica e Ultrassom (GIIMUS), da Universidade de São Paulo – USP, em Ribeirão Preto, coordenado por Antonio Adilton Carneiro, que também integra a vice-presidência da Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB).
O equipamento produz imagens tridimensionais da mama sem o uso de radiação ionizante e foi concebido para ampliar o acesso ao diagnóstico precoce do câncer de mama. De acordo com Carneiro, as pesquisas conduzidas na USP têm como prioridade responder a demandas concretas do sistema de saúde brasileiro, com foco na ampliação do acesso ao diagnóstico. “A principal diferença está no foco clínico e social. […] O objetivo não é criar uma experiência tecnológica de consumo, mas uma plataforma acessível, robusta e validada para o diagnóstico precoce.”
Para a SBEB, iniciativas como essas demonstram o papel estratégico da Engenharia Biomédica na transformação do conhecimento científico em soluções para a sociedade.
Como a IA está transformando exames clínicos
A presença da IA na saúde é um dos fatores que sustentam essa evolução. O artigo Artificial Intelligence Integration in Medical Imaging Data, publicado em 2026 na revista Progress in Molecular Biology and Translational Science, aponta que sistemas de IA já atuam em diferentes etapas da imagem médica, da aquisição à interpretação dos exames.
O avanço ocorre a partir de crescimento contínuo dos dados gerados pelos sistemas de saúde. Para lidar com esse volume de informações, algoritmos de aprendizado profundo estão auxiliando na melhora da qualidade das imagens, reduzindo ruídos e acelerando análises.
Para Carneiro, a evolução do ultrassom está diretamente relacionada à incorporação de recursos computacionais capazes de ampliar a qualidade e a padronização das imagens. “O ultrassom, que historicamente é um exame bastante dependente do operador, está entrando em uma nova fase, caracterizada pela aquisição volumétrica, reconstrução tridimensional e análise computacional avançada.”
A tendência também é abordada no artigo The Evolution of Artificial Intelligence in Medical Imaging: From Computer Science to Machine and Deep Learning, publicado na revista Cancers. Segundo os autores, os avanços em aprendizado profundo permitiram que sistemas de IA alcançassem desempenho comparável ao de especialistas em algumas aplicações de imagem médica.
Exames mais rápidos e sem radiação
A busca por métodos mais seguros e acessíveis tem impulsionado novas modalidades diagnósticas. Nesse cenário, o ultrassom se destaca por não utilizar radiação ionizante e apresentar potencial para ampliar o acesso aos exames.
O artigo Advances and Challenges in Precision Imaging, publicado em 2025 na revista The Lancet Oncology, mostra que os avanços recentes em imagem médica, caminham para exames mais rápidos, com maior cobertura anatômica e integração de diferentes tipos de informação clínica. Os autores destacam ainda o papel da IA na redução do tempo de obtenção das imagens e no aumento da acessibilidade dessas tecnologias.
A possibilidade de realizar varreduras corporais amplas em poucos minutos, se insere nessa tendência e pode contribuir para ampliar a capacidade de atendimento dos serviços de saúde.
Entre a promessa e a aplicação clínica
Apesar do potencial dessas tecnologias, sua incorporação à prática clínica depende de etapas rigorosas de validação e regulação. O artigo publicado na The Lancet Oncology destaca que novas tecnologias de imagem podem levar anos até alcançar aprovação regulatória e adoção em larga escala.
O pesquisador, Adilton Carneiro, ressalta que a distância entre uma tecnologia promissora e sua incorporação à rotina clínica, envolve etapas técnicas, regulatórias e assistenciais complexas. “Para uso diagnóstico amplo […] será necessário um percurso rigoroso de validação clínica, aprovação regulatória, definição de protocolos, treinamento profissional e integração com os sistemas de saúde.”
Nesse cenário, o ultrassom de corpo inteiro anunciado pela Midjourney representa menos uma substituição imediata dos métodos atuais e mais um indicativo futuro da Engenharia Biomédica. Carneiro finaliza, enfatizando que o avanço da IA deve estar associado a critérios de segurança, validação científica e benefício social para que novas tecnologias impactem positivamente a assistência à saúde. “A inovação mais desejável é aquela que combina ciência aberta, engenharia robusta, validação clínica e compromisso social. A IA certamente fará parte do futuro da imagem médica, mas deverá atuar como ferramenta de apoio ao profissional de saúde, e não como substituta do julgamento clínico.”
Referências:
Times Brasil. I.A. de imagens, Midjourney cria um scanner de corpo inteiro com mais detalhes que ressonância magnética. Último acesso em: 24/06/2026
Tecmundo. Midjourney cria scanner corporal para substituir ressonância magnética. Último acesso em: 24/06/2026
FFCLRP. Laboratório do DF/FFCLRP desenvolve primeiro tomógrafo de mama por ultrassom do Brasil. Último acesso em: 24/06/2026
Hricak H, Mayerhoefer ME, Herrmann K, Lewis JS, Pomper MG, Hess CP, et al. Advances and challenges in precision imaging. Lancet Oncol. 2025;26:e34–45. doi: 10.1016/S1470-2045(24)00395-4
Kataria P, Chaturvedi A, Yadav S, Prakash A, Sharma RD. Artificial intelligence integration in medical imaging data. Progress in Molecular Biology and Translational Science. 2026;221:315-362. doi: 10.1016/bs.pmbts.2026.01.019
Avanzo M, Stancanello J, Pirrone G, Drigo A, Retico A. The Evolution of Artificial Intelligence in Medical Imaging: From Computer Science to Machine and Deep Learning. Cancers. 2024;16(21):3702. doi: 10.3390/cancers16213702