Visita ao Hemocentro destaca o papel da terapia CAR-T brasileira

Resultados sobre o estudo clínico e desenvolvimento nacional mostram a evolução da terapia e os próximos passos para sua aplicação no SUS 

A terapia CAR-T desenvolvida pelo Hemocentro  e pelo Centro de Terapia Celular (CTC) foi tema de discussões na Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto – SP, em uma visita recente no dia 09 de junho pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A CAR-T é uma das estratégias da imuno-oncologia mais modernas, que utiliza o próprio sistema imunológico para combater o câncer. Durante o encontro foram apresentados, os resultados preliminares do estudo clínico, avanços regulatórios com a inclusão da tecnologia no Comitê de Inovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e as próximas etapas para uma possível incorporação ao sistema público de saúde. 

Uma terapia feita no Brasil

O percurso da terapia ilustra uma das principais frentes de atuação da Engenharia Biomédica, que integra múltiplas áreas e transforma avanços científicos em tecnologias aplicadas à saúde. Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF), mais de 87% dos pacientes, com histórico de falha em tratamentos anteriores, apresentaram resposta positiva à terapia, os resultados preliminares reforçam o potencial da tecnologia. Outro anúncio foi a inclusão do projeto no Comitê de Inovação da Anvisa, criado para acompanhar tecnologias consideradas estratégicas para a saúde pública. O estudo clínico continua em andamento, e os pacientes em tratamento continuarão acompanhados pelo período previsto, para avaliar a segurança e a eficácia da terapia antes de uma eventual solicitação de registro.

A produção da tecnologia em solo nacional representa outro diferencial do projeto. Atualmente, terapias CAR-T são utilizadas em diversos países do exterior, e  apresentaram resultados promissores no tratamento de cânceres hematológicos, como leucemia, linfoma e mieloma múltiplo, com casos de remissão. No entanto, os custos elevados ainda limitam seu acesso. A proposta da iniciativa, desenvolvida em Ribeirão Preto – SP, é criar uma estrutura de produção celular brasileira que, após a aprovação regulatória, possa ampliar a oferta desse tratamento no sistema público de saúde.

Como a Engenharia Biomédica participa desse avanço? 

O desenvolvimento da CAR-T brasileira ajuda a responder a essa pergunta. A Engenharia Biomédica reúne conhecimentos sobre imunologia, engenharia genética, cultura celular, bioprocessos e controle de qualidade, integrando essas diferentes áreas para transformar pesquisas em soluções para a saúde. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB), promove iniciativas em educação e profissionalização de membros, aproximando diferentes especialidades para a produção de pesquisas voltadas à saúde pública. 

Essa atuação multidisciplinar permite ampliar possibilidades de tratamento para pacientes com cânceres hematológicos, que não responderam positivamente a terapias convencionais como quimioterapia, radioterapia ou transplante de medula óssea, ou que apresentaram recaída após a remissão da doença.

Transformando defesa em tratamento

Inicialmente, o tratamento com a  CAR-T começa com a coleta dos linfócitos T, células responsáveis pela defesa do organismo. Em laboratório, elas passam por um processo de engenharia genética para receber um receptor artificial, chamado CAR (Chimeric Antigen Receptor), que funciona como um identificador de proteínas presentes na superfície das células cancerígenas. Depois de modificadas e multiplicadas, elas são reinfundidas no paciente para localizar e eliminar o tumor. Por permanecerem ativas no organismo e continuarem exercendo sua função após a infusão, as células CAR-T são frequentemente chamadas de “drogas vivas”, já que cada tratamento é produzido a partir das células do próprio paciente.

Os desafios da terapia CAR-T

A terapia CAR-T ainda apresenta limitações para alguns tipos de câncer. Um dos desafios envolve os chamados cânceres hematológicos refratários, situação em que a doença deixa de responder aos tratamentos disponíveis, ou volta a se manifestar após um período de remissão.

Entre eles está a leucemia mieloide aguda (LMA), um câncer que se origina na medula óssea e compromete a produção normal das células do sangue. Diferentemente de outras doenças hematológicas, a LMA apresenta diversidade entre os pacientes e não possui um alvo molecular específico nas células tumorais. Isso dificulta o desenvolvimento de terapias capazes de atacar apenas as células doentes, sem atingir também células saudáveis da medula óssea.

Outro obstáculo está no chamado microambiente tumoral. Na medula óssea, substâncias produzidas ao redor do tumor podem reduzir a atividade dos linfócitos T, fazendo com que essas células percam eficiência ao longo do tratamento. Em tumores sólidos, como os de pulmão e pâncreas, barreiras físicas e biológicas também dificultam a chegada e a permanência das células CAR-T na região afetada.

Para superar essas limitações, pesquisadores estão trabalhando no desenvolvimento de novas gerações de células CAR-T. As estratégias incluem modificações capazes de aumentar a permanência das células no organismo, melhorar a capacidade de atuar em ambientes desfavoráveis, e incorporar mecanismos de segurança, que permitam interromper sua ação caso elas passem a atingir tecidos saudáveis.

A CAR-T brasileira representa um passo importante na construção de tecnologias nacionais voltadas ao tratamento do câncer. Os próximos anos serão decisivos para confirmar sua segurança, eficácia e viabilidade de incorporação ao SUS, para facilitar o acesso a uma terapia que hoje permanece restrita a poucos centros especializados. Nesse processo, sociedades científicas como a Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB) são importantes para promover espaços de discussão e aproximação entre pesquisadores, bem como a divulgação de estudos relacionados à Engenharia Biomédica. Essas atividades favorecem a troca de conhecimentos necessária para investigar as limitações atuais e desenvolver novas aplicações para terapias celulares. 

Referências:

Jornal da USP. Ministro da Saúde destaca avanços da terapia CAR-T e anuncia nova fase do Genoma SUS em Ribeirão Preto. 2026

Zugasti, I., Espinosa-Aroca, L., Fidyt, K. et al. CAR-T cell therapy for cancer: current challenges and future directions. Sig Transduct Target Ther 10, 210 (2025). https://doi.org/10.1038/s41392-025-02269-w 

Courtney D DiNardo, Harry P Erba, Sylvie D Freeman, Andrew H Wei. Acute myeloid leukaemia. The Lancet, Volume 401, Issue 10393, 2023, Pages 2073-2086, ISSN 0140-6736, https://doi.org/10.1016/S0140-6736(23)00108-3

Brudno JN, Maus MV, Hinrichs CS. CAR T Cells and T-Cell Therapies for Cancer: A Translational Science Review. JAMA. 2024;332(22):1924–1935. doi:10.1001/jama.2024.19462 

Alsaieedi AA and Zaher KA (2025) Tracing the development of CAR-T cell design: from concept to next-generation platforms. Front. Immunol. 16:1615212. doi: 10.3389/fimmu.2025.1615212

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