Tecnologias da neuroengenharia avançam no tratamento de transtornos mentais

Ultrassom focalizado e estimulação elétrica interferencial são estudados como alternativas não invasivas para pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais

Pacientes com transtornos neurológicos e psiquiátricos que por algum motivo não respondem a medicamentos ou psicoterapia podem, no futuro, contar com alternativas terapêuticas desenvolvidas pela neuroengenharia. Entre elas estão o ultrassom focalizado de baixa intensidade (LIFU) e a estimulação elétrica interferencial, técnicas de neuromodulação não invasiva que atuam sobre circuitos cerebrais para modificar sua atividade de forma controlada. Ainda em fase de investigação clínica, essas tecnologias vêm sendo estudadas por pesquisadores de diferentes instituições. Eles também integram uma das frentes de pesquisa acompanhadas pela Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB), que promove a integração entre engenharia, neurociência, medicina e inovação científica.

Como funcionam as técnicas de neuromodulação

A neuroengenharia reúne conhecimentos de engenharia, computação, neurociência e medicina para desenvolver tecnologias capazes de compreender, monitorar, diagnosticar e tratar alterações do sistema nervoso. A neuromodulação busca ajustar o funcionamento de circuitos cerebrais por meio da aplicação controlada de diferentes formas de energia.

Entre as abordagens em estudo, o ultrassom focalizado de baixa intensidade tem despertado atenção por permitir atingir regiões do cérebro sem a necessidade de cirurgia. Segundo Hermes Arytto Salles Kamimura, diretor regional da INSIGHTEC, a tecnologia concentra energia acústica em alvos específicos do cérebro sem provocar lesões permanentes, permitindo modificar temporariamente a atividade de circuitos neurais. Kamimura compara o funcionamento do ultrassom focalizado ao botão de volume de um rádio: assim como é possível aumentar ou diminuir o som sem alterar o aparelho, a tecnologia ajusta temporariamente a atividade de regiões específicas do cérebro, preservando ao máximo o tecido cerebral.

Diferentemente do ultrassom que se empregado em procedimentos de alta intensidade, podem produzir lesões no tecido cerebral, o LIFU atua de forma reversível. As ondas sonoras atravessam o crânio e concentram energia em áreas específicas, modulando a atividade dos neurônios por dispositivos mecânicos que ainda seguem em investigação, incluindo a ativação de canais mecanossensíveis como o Piezo1, capaz de transformar pressão sonora em sinais elétricos.

Outra estratégia abordada é a estimulação elétrica interferencial. Assim como outras modalidades de estimulação cerebral não invasiva, ela utiliza correntes elétricas aplicadas de forma controlada para modificar a atividade de circuitos neurais, ampliando o conjunto de tecnologias estudadas para o tratamento de doenças neurológicas e psiquiátricas.

Kamimura explica que cada técnica de neuromodulação apresenta vantagens e limitações, variando principalmente quanto à precisão, à profundidade de alcance e ao grau de invasividade do procedimento. “Em resumo, as técnicas elétricas não invasivas oferecem boa acessibilidade, porém limitada para estruturas profundas e com menor precisão espacial. Já técnicas como o DBS (estimulação cerebral profunda) oferecem excelente precisão e acesso profundo, porém de forma invasiva. O ultrassom focalizado combina acesso profundo e alta precisão espacial sem necessidade de cirurgia”.

Resultados ainda dependem de novos estudos

O potencial clínico do ultrassom focalizado foi analisado na revisão de escopo Focused ultrasound neuromodulation for psychiatric disorders: a scoping review of clinical applications and current progress, publicada no Journal of Neural Transmission. O levantamento reuniu estudos publicados nas bases PubMed, Embase e Scopus até maio de 2025. Dos 320 trabalhos identificados, apenas 14 estudos em humanos, preencheram os critérios de inclusão, de um total de 242 participantes com diagnósticos psiquiátricos definidos, 

 As evidências clínicas disponíveis concentram-se em pacientes com depressão maior, cerca de 65% dos casos analisados na revisão. Nesses estudos, o ultrassom focalizado de baixa intensidade foi associado à redução dos sintomas depressivos, além de melhorias no humor e no desempenho cognitivo, com efeitos que, em alguns participantes, persistiram por até três meses. Ainda de acordo com a pesquisa, esse potencial terapêutico está relacionado, entre outros fatores, à modulação de regiões cerebrais frequentemente alteradas na depressão, como o córtex pré-frontal dorsolateral e o córtex cingulado subcaloso.

Resultados também foram observados em outras condições. Em pacientes com transtorno por uso de opioides, uma única sessão direcionada ao sistema de recompensa cerebral reduziu em 91% o desejo pela droga, efeito mantido por até 90 dias. Estudos piloto ainda apontaram taxas de remissão de 32% em transtorno de ansiedade generalizada, resposta clínica em aproximadamente 70% dos casos de transtorno obsessivo-compulsivo resistente e redução de sintomas negativos da esquizofrenia, como isolamento social e diminuição da expressão emocional.

Os próprios autores ressaltam que a tecnologia permanece em fase investigacional. As diferenças entre equipamentos, parâmetros físicos, protocolos de aplicação e regiões cerebrais estimuladas dificultam a comparação direta dos estudos. Embora a maioria dos efeitos adversos tenha sido leve e transitório, como dor de cabeça, foram registrados dois eventos psiquiátricos graves, reforçando a necessidade de protocolos padronizados, acompanhamento médico e estudos clínicos antes da adoção ampla dessas tecnologias.

Integração entre ciência e engenharia

Embora o ultrassom focalizado para neuromodulação ainda esteja em investigação, tecnologias baseadas em ultrassom de alta intensidade já fazem parte da prática clínica em outras indicações. Kamimura informa que essa experiência também começa a avançar no Brasil. “O Brasil, aliás, já integra o grupo de países que oferecem clinicamente o MRgFUS/HIFU para distúrbios do movimento, com o procedimento disponível no Hospital Israelita Albert Einstein desde 2025, o que torna o Brasil um dos pioneiros na América Latina nessa tecnologia, atrás do Chile e Argentina”. 

O HIFU (High-Intensity Focused Ultrasound, ou ultrassom focalizado de alta intensidade) utiliza vários feixes de ultrassom que atravessam o crânio e convergem em um único ponto do cérebro. Embora cada feixe individual transporte pouca energia, a concentração deles no alvo gera calor suficiente para produzir uma pequena lesão controlada e permanente, sem necessidade de abrir o crânio. Durante o procedimento, a ressonância magnética permite localizar o alvo e acompanhar a aplicação da energia em tempo real, aumentando a segurança e a precisão do tratamento. 

Além dos desafios científicos, Kamimura avalia que a futura disseminação dessas tecnologias dependerá da criação de mecanismos regulatórios capazes de garantir segurança durante o uso, especialmente se os dispositivos se tornarem mais acessíveis à população. “O desafio principal provavelmente não será mais o hardware, mas a segurança regulatória, já que um equipamento capaz de estimular a amígdala, o núcleo accumbens ou o córtex pré-frontal em casa inevitavelmente exigirá autenticação do protocolo médico, limites rígidos de energia e tempo de exposição, monitoramento remoto, bloqueios contra uso inadequado e registro automático das sessões.”

Referência:

Prasad, D., Jain, R., Samal, B. et al. Focused ultrasound neuromodulation for psychiatric disorders: a scoping review of clinical applications and current progress. J Neural Transm (2026). https://doi.org/10.1007/s00702-026-03113-3 

SBEB. Ultrassom de corpo inteiro reacende debate sobre o futuro dos exames de imagem. 2026

SBEB. SBEB e SBIS unem conhecimento para transformar a saúde digital. 2026

SBEB. Tomógrafo de mama por ultrassom desenvolvido na USP promete ampliar o acesso ao diagnóstico precoce do câncer de mama. 2025

Lattes. Hermes Arytto Salles Kamimura. Última visita em: 27/07/2026

INSIGHTEC. Última visita em: 27/07/2026

Saotome, K., Murthy, S., Kefauver, J. et al. Structure of the mechanically activated ion channel Piezo1. Nature 554, 481–486 (2018). https://doi.org/10.1038/nature25453 

Pubmed. Última visita em: 27/07/2026

Elsevier. Embase. Última visita em: 27/07/2026

Elsevier. Scopus. Última visita em: 27/07/2026

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