Nesta semana, a SBEB resgata o legado de Cândido Pinto de Melo e evidencia a atuação do Instituto Mara Gabrilli e da Tecnologia Assistiva na promoção da autonomia e da inclusão de pessoas com deficiência
O Brasil tinha 14,4 milhões de pessoas com deficiência em 2022, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse cenário, a Semana do Setembro Verde, realizada de 21 a 28 de setembro, destaca o papel da Engenharia Biomédica no desenvolvimento de tecnologias assistivas voltadas à autonomia, à acessibilidade e à inclusão. A iniciativa também resgata a história do Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, celebrado em 21 de setembro. A data foi idealizada em 1982 por Cândido Pinto de Melo, engenheiro biomédico, ativista e ex-vice-presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB). Sua trajetória ajuda a aproximar a história da luta pelos direitos das pessoas com deficiência da evolução da Engenharia Biomédica no país.
Um legado ligado à história da SBEB
Cândido Pinto de Melo nasceu em 1947, em João Pessoa (PB), e estudou Engenharia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Durante a graduação, participou do movimento estudantil e da resistência à ditadura militar. Em 1968, foi escolhido para representar Pernambuco no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), encontro que terminou com a prisão dos estudantes pelos militares. No ano seguinte, Melo foi baleado enquanto aguardava um ônibus após participar do planejamento de uma assembleia estudantil. O tiro atingiu sua coluna e o deixou paraplégico.
Sua história passou a integrar também a luta pelos direitos das pessoas com deficiência. Para a SBEB, esse legado se relaciona ao papel atual da Engenharia Biomédica no desenvolvimento de tecnologias que ampliem a participação, a independência e o acesso à saúde.
Essa contribuição permanece presente na SBEB até os dias atuais, Cândido Pinto de Melo foi um dos fundadores pioneiros da instituição, e teve papel importante no desenvolvimento da Engenharia Biomédica no Brasil. Desde 2002, ano de seu falecimento, a SBEB concede o Prêmio Cândido Pinto de Melo, criado em sua homenagem, e considerada a principal distinção científica destinada a estudantes de pós-graduação em Engenharia Biomédica. A premiação é definida pela Comissão Científica e pela Comissão Organizadora do CBEB, em conjunto com a Diretoria da SBEB, e posteriormente divulgada no site do congresso
A presidente da SBEB, Sônia Malmonge, destaca a importância dessa associação entre a data e a trajetória da Engenharia Biomédica no Brasil: “É muito significativo o fato desta data estar associada a Cândido Pinto de Melo, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica. Sua trajetória nos lembra a Engenharia Biomédica, desde seus primeiros passos no país. ” Para a Sônia, o trabalho desenvolvido pelo pesquisador revela uma Engenharia Biomédica que, buscava responder, para além dos avanços tecnológicos na área da saúde, a demandas concretas da sociedade.
Tecnologia assistiva aproxima ciência e necessidades
A Tecnologia Assistiva reúne recursos e estratégias que contribuem para ampliar a autonomia e a participação de pessoas com deficiência. Na Engenharia Biomédica, isso inclui órteses, próteses, neurotecnologias, exoesqueletos e sistemas voltados à mobilidade. Para Sônia, o papel da área vai além da criação de dispositivos. “Nesse sentido, considero que a Engenharia Biomédica tem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais inclusiva. Tecnologias assistivas (…) podem ampliar a autonomia e a participação das pessoas com deficiência em diferentes dimensões da vida”.
Maria Aparecida Valença, gestora do Instituto Mara Gabrilli, também relaciona essas tecnologias à garantia de direitos. “A tecnologia assistiva é fundamental, porque pode contribuir diretamente para a autonomia e a independência dessas pessoas. Por isso, ela deve ser compreendida não como um privilégio, mas como um recurso necessário para garantir direitos e inclusão social”.
Entre as pesquisas desenvolvidas no país estão uma prótese transtibial produzida com bambu e resina de mamona, desenvolvida na Universidade Estadual Paulista (Unesp), e sistemas que utilizam sensores para transformar sinais musculares em comandos para próteses. Também são estudados joelhos mecânicos, exoesqueletos robóticos e cadeiras de rodas modulares.
O desafio, porém, não termina no laboratório. É necessário transformar protótipos em produtos fabricados, acessíveis e incorporados aos serviços de saúde. “É importante que a Engenharia Biomédica esteja presente não apenas no desenvolvimento de dispositivos, mas também na discussão sobre acesso, custo, manutenção e incorporação dessas tecnologias aos serviços de saúde”.
Redes buscam ampliar o acesso
Transformar conhecimento científico em soluções que possam ser efetivamente utilizadas pela população exige mais do que o desenvolvimento de novas tecnologias. É preciso criar condições para que os resultados das pesquisas avancem dos laboratórios para aplicações concretas, que cheguem aos usuários. Com esse propósito, o Sistema Nacional de Laboratórios de Tecnologia Assistiva (SisAssistiva), instituído pela Portaria MCTI nº 6.033/2022, reúne iniciativas de pesquisa, desenvolvimento tecnológico, prototipagem e inovação em áreas como órteses, próteses, neurotecnologias e mobilidade.
Segundo Maria Aparecida Valença, a articulação pode facilitar a transformação dos resultados científicos em soluções disponíveis à população. “Uma rede [a SisAssistiva] como essa possibilita aproximar diferentes áreas e fazer com que um protótipo tenha condições de se transformar em um produto que realmente possa chegar à ponta”.
Financiada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a rede envolve diferentes atores na produção e aplicação de tecnologias assistivas disponíveis aos usuários. Esse caminho, no entanto, não é imediato, entre a pesquisa e a aplicação da solução, há diversas etapas, que envolvem validação, aperfeiçoamento, produção e incorporação da tecnologia.
“Considerando que um protótipo nasce de uma pesquisa, do conhecimento de uma necessidade e da realidade de quem vai utilizá-lo, existe um caminho importante até que ele realmente chegue à pessoa que precisa”, ressalta Maria.
O Instituto Mara Gabrilli também atua nas áreas de acessibilidade e Tecnologia Assistiva, articulando conhecimento e iniciativas voltadas à inclusão de pessoas com deficiência. Para Maria, o Setembro Verde coloca em evidência a diversidade de realidades, e as experiências reais, quanto às necessidades dessas pessoas. “A campanha Setembro Verde amplia a discussão sobre diversos temas relacionados às pessoas com deficiência (…) É uma oportunidade para mostrar que falar de inclusão não significa pensar apenas em rampas, acessibilidade física ou em um único tipo de deficiência”.
Os dados também mostram a dimensão desse desafio. Em 2021, as importações brasileiras de tecnologia assistiva somaram US$ 711,4 milhões, enquanto as exportações chegaram a US$ 177,7 milhões. Fortalecer a produção nacional depende, entre outros fatores, da conexão entre centros de pesquisa, fabricantes, financiamento e sistemas públicos de saúde.
O Censo 2022 identificou 7,9 milhões de pessoas com dificuldades para enxergar, 5,2 milhões para andar ou subir degraus, 2,7 milhões para manusear objetos e 2,6 milhões para ouvir. Cerca de 1,4 milhão apresentavam limitações relacionadas às funções mentais. A prevalência aumenta com a idade e ultrapassa 30% entre pessoas com 80 anos ou mais. Em 16% dos domicílios brasileiros havia pelo menos uma pessoa com deficiência.
Quando diferentes necessidades entram em pauta, a tecnologia assume papel importante na construção de respostas que favoreçam a inclusão e a autonomia da população. Para Sônia, esse compromisso está relacionado à própria trajetória da SBEB:
“A participação da SBEB no Setembro Verde reforça, portanto, um compromisso que está profundamente relacionado à própria história da Sociedade: utilizar o conhecimento científico e tecnológico para promover uma saúde mais inclusiva e contribuir para que a inovação brasileira se transforme em autonomia, acessibilidade e qualidade de vida”.
A Engenharia Biomédica reúne ciência, tecnologia e saúde para responder a demandas concretas da sociedade, mesmo após décadas após os primeiros passos da área no Brasil, o legado de Cândido Pinto de Melo permanece presente em um desafio que continua atual, transformar conhecimento científico em soluções que promovam autonomia, participação e qualidade de vida para as pessoas com deficiência.
Referências:
Agência Brasil. Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência. 2025
União Nacional dos Estudantes (UNE). Cândido Pinto, um militante da democracia
Revista Pesquisa FAPESP. Cientistas desenvolvem modelos inovadores de próteses e exoesqueletos. 2025
SBEB. Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência: a conquista de Cândido Pinto de Melo. 2025
SBEB. SBEB e SBIS unem conhecimento para transformar a saúde digital. 2026
SBEB. Cinco décadas da SBEB ajudam a estruturar a engenharia biomédica no Brasil. 2025
SBEB. Tecnologia assistiva como resposta aos desafios do envelhecimento. 2025
SBEB. Carreira em Engenharia Biomédica acompanha avanço da inovação em saúde no Brasil. 2026
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Portaria MCTI nº 6.033, de 24.06.2022. 2022